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# 226 - Eu e a comida

Nessa minha jornada em busca de uma relação mais harmoniosa com o meu corpo, uma faceta dessa relação muito importante - se não a mais importante - é a minha alimentação.


A minha relação com a comida foi sempre uma relação de exageros desmedidos, descontrole completo e falta de disciplina. Mesmo quando eu pesava 49 quilos eu me alimentava muito mal, a única diferença é que meu metabolismo dava conta das minhas loucuras culinárias. Quando eu estava na escola eu comia um pão de queijo, uma coxinha, uma lata de coca e um suflair toda santa manhã. Almoçava perto da escola - coisas não muito saudáveis - e repetia o mesmo cardápio do café da manhã na parte da tarde. Me surpreende que eu não pesasse 90 quilos naquele época, é mesmo um milagre que eu já tenha sido magra na vida. Sempre tomei muito refrigerante, comi muita fritura, muito Mc Donalds, mas eu era magra então nunca me ocorreu que algum dia eu fosse ter que me preocupar com o que comia ou prestar atenção nas calorias dos alimentos.

Aqui em casa comer sempre foi bem mais do que se alimentar. Minha vó foi cozinheira por anos e sabe fazer coisas maravilhosas na cozinha. Minha mãe não fica atrás e meu pai também manda muito bem, até o meu irmão sabe fazer uma coisa ou outra. Eu adoro cozinhar, é um imenso prazer pra mim misturar ingredientes e ver no que vai dar. E aqui em casa a gente adora receber gente, e nada melhor do que fazer um churrasco ou um almoço de domingo pra reunir o pessoal. E foi assim que eu cresci, vendo comida muito mais como algo que dá prazer e que está sempre envolvida nessas situações sociais.

Esse é um fato que eu tenho que levar em consideração: comer nunca vai ser meramente se alimentar pra mim. Tem gente que não liga de comer bife com arroz e feijão durante a semana inteira e se contenta em comer a macarronada da mãe todo domingo. Eu até invejo gente assim, que tem essa relação tão "fria" com a comida. Mas eu não consigo ser assim. Eu sei que preciso mudar essa relação que eu tenho com os alimentos, mas sei que nunca serei capaz de sinceramente não me importar com o que como.

O meu namorado diz que a minha relação com a comida é muito mais emocional e raramente racional. E ele tem razão. Eu uso a comida como fonte de prazer quando há frustrações em outros campos da minha vida, eu fico extremamente chateada quando quero comer alguma coisa e não posso (por exemplo, quando eu quero comer num restaurante e ele está fechado) e eu sofro de saudade de comer coisas que não existem mais (bebezinho seven boys de chocolate com recheio de  baunilha é um ótimo exemplo). Pessoas quase perderam os dedos por tentarem roubar alguma coisa do meu prato e o tipo de briga mais constante que eu tenho com o meu irmão é porque ele comeu alguma coisa minha.


Está mais do que claro que esse tipo de relação com qualquer coisa é sem dúvida alguma nada saudável. Então a minha meta é conseguir transformar essa relação em algo mais natural, menos emotivo e mais benéfico pra minha saúde. E pra isso há 3 coisas que eu farei daqui em diante pra melhorar a minha alimentação:

1. Questionar as minhas escolhas, TODAS ELAS: essa é a mais difícil no começo, mas creio que se tornará uma coisas mais natural e inconsciente com o tempo. Eu realmente irei questionar cada escolha de alimento que eu fizer, me fazendo algumas perguntas como "eu realmente estou com fome pra comer agora ou é só vontade?", "existe uma opção mais saudável do que essa no momento?", "eu realmente preciso comer essa quantidade, não me contentaria com menos?", "eu realmente preciso de sobremesa depois desse almoço?". Dessa forma eu estarei mais consciente das escolhas que faço e poderei controlar melhor os meus impulsos.

2. Deixar o saudável também gostoso: como eu já disse comer pra mim sempre terá o lado prazeroso, então eu tenho que fazer com que os alimentos que são saudáveis sejam também gostosos, pra que eu posso me sentir feliz comendo um sanduíche light bem feitinho e temperado em vez de um Big Tasty.

3. Achar novos prazeres: eu deixei por muito tempo que a comida fosse uma das minhas principais fontes de prazer e por isso preciso achar novas fontes de serotonina que sejam menos calóricas. Uma coisa que me dá prazer é escrever (aqui no blog e em outros projetos) e eu tinha deixado isso um pouco de lado, por isso pretendo retomar essa prática. E estou também pensando em um esporte pra praticar, essa é sem dúvida a melhor opção de hobby pra mim na minha atual circunstância.

Espero com isso começar a modelar essa nova relação com o ato de comer, quero me sentir livre dessa compulsão pra poder estar de bem comigo mesma. Essa semana tem sido muito boa, sem exageros, sem graves deslises e com muita convicção de que meu plano irá funcionar ;)


# 62 - Onde estão as pessoas interessantes?


Esse foi um assunto que ficou grudado na minha cabeça essa semana. Onde é que foram parar as pessoas interessantes, com coisas legais pra falar, que conseguem manter uma conversa agradável por mais de 5 minutos?

Meus dias de semana se passam quase que totalmente no trabalho e na faculdade. Nos finais de semana mais do que merecidos, eu saio com amigos, vou a churrascos, shows, cinema, festas e afins. Nos últimos meses percebi uma certa dificuldade em conhecer pessoas interessantes em qualquer um desses cenários.

Antes de mais nada, quero explicitar o meu conceito de interessante: eu não espero discutir filosofia grega e nem física quântica com alguém em um churrasco de faculdade, o que eu entendo por interessante é o sentido real da palavra, alguém "que interesse".

O que eu tenho percebido ultimamente nas conversas que tenho (ou tento ter) e que ouço é que as pessoas estão com uma dificuldade imensa em conversar verdadeiramente, em compartilhar coisas sobre si mesmos e, mais ainda, se interessar pelo o que o outro tem a dizer. O que eu observo muitas das vezes, são duas pessoas monologando, sem interagir realmente com o outro, sem vivenciar o que deveria ser uma relação social de fato. Estamos tão fechados em nós mesmos que não somos capazes de sair desse limite para alcançar aqueles a nossa volta.

O filósofo Martin Buber disse que o homem pode estabelecer dois tipos de interação com o mundo. O primeiro, ele denominou "Relação Eu-Tu", onde nós nos relacionamos com a pessoa do outro, de forma mais profunda, de maneira que nos reconhecemos no outro e vice-versa. O segundo, ele denominou "Relação Eu-Isso", onde nos relacionamos com o outro como objeto. A relação Eu-Tu é uma interação que demanda muito esforço das partes envolvidas, pois entramos em contato profundo com o outro e, por consequência, com nós mesmo. Por causar essa espécie de desgaste à psique humana, não conseguimos manter esse tipo de relação com todos a nossa volta, e nem por todo o tempo. É por isso que mantemos uma relação Eu-Isso na maior parte de nossa vida social, para que possamos viver socialmente de maneira eficaz. Por exemplo, quando uma pessoa está conversando com seu marido sobre seus planos e aspirações e ela reconhece nesse marido um outro como sujeito e se reconhece nesse outro, estabeleceu-se uma relação Eu-Tu. Mas quando eu pego um ônibus e interajo com o motorista e com o cobrador, eu não estou interagindo com essas pessoas de maneira profunda, eu me relaciono com o "objeto motorista" e com o "objeto cobrador". Eu não conseguiria me relacionar de maneira profunda com todas as pessoas com quem interajo no meu dia-a-dia, por isso estabelecemos relações Eu-Isso com a maior parte das pessoas.

Mas o que eu tenho visto, são pessoas que são capazes apenas de estabelecer relações Eu-Isso. Não se vê mais o outro como pessoa, como um ser humano que pensa e sente, se vê sempre o outro como o papel que ele representa em nossa existência. Não há mais a relação entre, por exemplo, um pai e um filho onde o pai, "Fulano da Silva", reconheça o filho, "Ciclano da Silva", como sujeito e vice-versa. Ao invés disso, "Fulano da Silva" mantém uma relação com o "objeto filho", que deve obedecer suas ordens e fazer seus deveres, enquanto "Ciclano da Silva" mantém uma relação com o "objeto pai", que deve comprar seus brinquedos e levá-lo a escola. A humanidade está, ao poucos, ficando incapaz de reconhecer a subjetividade do outro, e assim, de reconhecer sua própria subjetividade, sua própria essência.

E mesmo quando a interação é verdadeira, os assuntos são rasos. As pessoas debatem exaustivamente assuntos como o próximo capítulo da novela, o último escândalo do mundo das celebridades, mas não estão dispostas a conversar sobre assuntos que interferem diretamente em suas vidas. Isso vai desde política e educação à assuntos de interesse pessoal, como seus gostos, seus planos, seu lado ser humano na condição de ser que pensa, reflete, questiona.

Recebemos enxurradas de desinformação o tempo todo, e assim vamos nos distanciando de questões genuinamente importantes. Deixamos de questionar aquilo que passa por nossos olhos e ouvidos, passamos a categoria de seres passivos, que não atuam em cima daquilo que recebem Há milhares de pessoas que não vivem verdadeiramente, que apenas existem. Passam por esse mundo sem ao menos questionar o que influencia o curso de suas vidas. Aceitam qualquer verdade como verdade, possuem um olhar ingênuo em relação aos estímulos que tomam conta de nossa atenção e nos distraem de questões importantes.

Resultado: temos uma massa de indivíduos vazios, que geram relações vazias, incapazes de estabelecer um contato mais profundo com outra pessoa, sem empatia, sem nem ao menos conseguir enxergar o lugar do outro. Temos pessoas incapazes de falar sobre si mesmas e manter uma conversa agradável, de se interessar pelo o que o outro traz pra relação. Pessoas que vivem suas vidas de forma passiva, introjetando todo o mundo a sua volta. Indivíduos ocos, sem graça. Gente nem um pouco interessante...

"E com toda a seriedade da verdade, ouça: o homem não pode viver sem o ISSO, mas aquele que vive somente com o ISSO não é homem."

Martin Buber 



Bjus =*
Juliana